Homenagem a Thomaz Farkas

Por André Teixeira

A fotografia foi apresentada ao mundo como uma reprodução objetiva,
“pura”, do real. Seu caráter técnico lhe conferia um valor de documento
que pinturas, esculturas e outras obras que dependiam da mão humana, por
mais realistas que fossem, não tinham. Em pouco tempo, no entanto, a
inquietação dos primeiros fotógrafos mudou esse panorama: mais do que
reproduzir, ela podia e queria interpretar, influenciar, até mesmo subverter
a realidade. A imagem no espelho, mais do que um reflexo, produzia
reflexões.

Fotos de Thomaz Farkas – Acervo IMS

Tínhamos, literalmente impressa numa folha de papel, uma contradição em
termos: um documento que permitia interpretações subjetivas. O mundo
não era apenas visto; era, também, sentido, reinterpretado. O instantâneo se
tornava duradouro, e a fotografia, arte.
A disseminação da fotografia digital modificou esse cenário. Passamos a
produzir imagens compulsivamente: só em 2017, segundo o fotógrafo e
professor Millard Schisler, a humanidade fez um trilhão de cliques – 85%
com celulares. Tudo é registrado, a vida só acontece se transformada em
pixels publicados nas redes sociais.

Nossa capacidade de absorver e interpretar imagens é limitada. Soterrados
por essa avalanche de registros banais do cotidiano, trabalhos consistentes,
analíticos, até mesmo provocativos, perdem visibilidade. A fotografia é,
assim, novamente relegada ao papel de mero documento, de comprovação
do real.
Nada contra, evidentemente, a imagem digital, muito menos sua
democratização. Acreditamos, porém, que é hora de revalorizar a fotografia
que, além de despertar sentimentos, questões e subjetividades, tenha a
qualidade como pilar. Viveremos um ano em que o mundo, após a
pandemia, encontrará novos caminhos, que em muitos casos exigirão a
redescoberta de bases sólidas, tradicionais. A fotografia, espelho deste
mundo, deve seguir a mesma trajetória.

A escolha de Thomaz Farkas como homenageado do PEF PARATY EM
FOCO 2021 se enquadra nesse conceito. Pioneiro da moderna fotografia
brasileira, professor, produtor e diretor de cinema, Farkas foi ao mesmo
tempo revolucionário e conservador: a inovação apresentada em sua obra sempre se apoiou numa consistente formação técnica e cultural. Simboliza,
assim, essa busca por novos rumos, apoiada na qualidade e reflexão. É o
que propomos para a 17ª. edição do nosso festival, nos 10 anos da morte deste ícone da fotografia brasileira.

Um retrato da migração

Virginia Yunes, segunda colocada na categoria Foto Única da Convocatória PEF 2019, fala sobre a foto escolhida, sua trajetória e outros projetos nesta entrevista

Fale sobre sua trajetória na fotografia.

Nasci na Argentina, e com 10 anos de idade mudei-me para Florianópolis, no Brasil. Creio que esta minha condição de imigrante despertou em mim o interesse pela diversidade étnica e cultural. Posteriormente, a interação com missionários católicos levou-me a fazer voluntariado em vários lugares do Brasil e países, tendo morado um ano na Amazônia, um mês no México e quase dois anos na Guiné Bissau (África). Foi precisamente o conflito armado de 1998, na Guiné-Bissau, o precursor da minha carreira fotográfica, embora eu já tivesse alguma familiaridade com as artes visuais, e, de maneira especial, com a fotografia. Ao retornar ao Brasil, eu percebi que deste lado do Atlântico a maioria das pessoas não sabia o que estava acontecendo na África, era uma guerra não noticiada pela mídia brasileira. Com objetivo de tornar conhecido o conflito armado e de angariar fundos para enviá-los ao povo guineense, organizei uma exposição itinerante, “SOS Guiné Bissau”, com as fotografias que realizei durante a minha estadia no país. Percebi nela o instrumento de comunicação, de reflexão, e denúncia também. Me apaixonei pela fotografia!

Minha formação académica começa na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde graduei-me em Farmácia e fiz o mestrado em Ciência dos Alimentos. Pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) licenciei-me em Educação Artística e fiz doutorado em Artes Visuais. Nesta última universidade atuo como professora colaboradora de fotografia no curso de Artes Visuais.

Tenho experiência vasta como fotógrafa documentarista, tendo colaborado com diversas instituições, revistas e ONGs: Unicef, Caritas e Mundo & Missão, entre outras, em diferentes países, num total de 46. Organizei várias exposições nacionais e internacionais. Premiada no Brasil, na Argentina, na Colômbia e em Cuba, no âmbito da fotografia e de projetos culturais.

Entre as tantas referências no Campo Fotográfico destaco os fotógrafos Sebastião Salgado, Pierre Verger, Henri Cartier Bresson, Steve McCurry, entre tantos outros. Vale lembrar que nossa bagagem é constituída de referências que transportamos de outras áreas, como da literatura, música, cinema, etc.

A busca incessante por experiências diversas, aliada à presença constante da minha câmara fotográfica, de fato, foi o que me impulsionou e levou para tantos lugares, aproximando-me de pessoas distantes de mim. Descobri a fotografia e me descobri ao ir ao encontro dos outros. Compreende a fotografia como agente de aproximação entre pessoas, concepções do mundo, culturas e detector de fronteiras. Acredito na arte comprometida e humanista, cujo poder se torna fundamental para sensibilizar, levar à reflexão crítica, educar, aprimorar, engajar os indivíduos nas lutas sociais, transformando vidas, olhares e, também, corações.

Por que decidiu participar da Convocatória 2019? Já havia participado?

Uma amiga me enviou a convocatória, me motivando a participar. Assim que ela tomou conhecimento da temática, lembrou das minhas fotografias. Eu já havia participado como ouvinte do Festival há alguns anos.

O que representou ser selecionada entre as três vencedoras? Como foi a repercussão?

Ser premiada no Festival Paraty em Foco, um dos mais importante do Brasil e talvez da América do Sul, foi uma grande alegria, sobretudo, por ser escolhida uma fotografia documental, legitimando, de certo modo, o meu ato fotográfico.

Fale sobre a foto selecionada. Faz parte de algum projeto maior?

Há muitos anos eu viajo trabalhando para algumas instituições e ONGs, na maioria das vezes, eles me pagam a passagem e hospedagem, em troca eu ofereço as minhas fotografias usadas para angariar fundos e/ou escrever os relatórios àqueles que financiaram/patrocinaram seus projetos.

A fotografia premiada foi feita em Uganda, na África no ano de 2010. Viajei ao país para documentar, em foto e vídeo, crianças órfãs vítimas de Aids. As fotos foram utilizadas para angariar fundos e apadrinhamento à distância. Na ocasião estava acontecendo um grande encontro religioso, participando dele mais de 20 mil pessoas vindas de cidades e países vizinhos. Muitos chegavam e partiam a pé ou em boleia de camião, carregavam em algumas trouxas de tecidos suas roupas e alimentos, também transportavam colchões ou panos para dormir ao ar livre num imenso campo organizado para esse encontro. Foi uma experiência incrível e nesses dias de retiro eu tive a oportunidade de interagir com muitas das pessoas, o que de certa forma facilitou a produção das imagens, essa familiaridade minha com eles e vice-versa.

O que levou em conta na hora de escolher as fotos e ensaios para enviar?

Como o tema era Migrações, lembrei de tantas pessoas que diariamente se deslocam de suas terras a procura de uma vida melhor, um futuro seguro, uma esperança. Pré-selecionei também algumas imagens que eu tinha de africanos em diáspora e outras imagens que faziam alusão ao tema. Como tinha que enviar apenas três, pedi ajuda aos amigos e colegas, é muito importante contar com o olhar do outro pois a nossa relação afetiva nos impede muitas vezes de fazer a seleção final.

Está desenvolvendo algum outro projeto atualmente?

Atualmente dou aula de fotografia na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), continuo fotografando como free-lancer – em 2019, por exemplo, fui contratada pela Caritas para fotografar diversos projetos de Economia Popular Solidária em diversas regiões do Brasil. Também estou desenvolvendo dois projetos premiados por um edital da Fundação Cultural do Estado de Santa Catarina para editar livros de fotografias. Um deles é sobre a dança do Catumbi, que acontece numa comunidade quilombola do Itapocu, no interior do Estado, uma manifestação religiosa afro-brasileira. O outro, chamado “Cabelos Afros: símbolo de resistência e luta”, irá valorizar e unir a essa luta.

Pretende participar novamente da Convocatória?

Sim, ainda mais se eu tiver no meu arquivo fotos que remetam ao tema.

O que achou do festival em 2019?

Gostei muito de participar do Festival, palestras e debates riquíssimos, exposições incríveis, todo o ambiente criado na cidade ajudou na troca de experiência com outros fotógrafos e cidadãos. Como eu tinha passe livre para todas as palestras, aproveitei e não perdi nenhuma, entretanto, fiquei com o desejo de ter feito alguma oficina, mas elas aconteciam no mesmo horário das palestras. Talvez esta seja uma das minhas observações, se é possível pensar em como programar as oficinas em dias ou horários diferentes.

O conceito do PEF 2020

Por Juan Esteves

FOTO DE DAVID ALAN HARVEY, UM DOS CONVIDADOS DA SÉTIMA EDIÇÃO DO PARATY EM FOCO, EM 2014.

A Fotografia tem como papel intrínseco o posicionamento em seu momento mais contemporâneo e emergente, ao mesmo tempo em que valida a documentação histórica, conjugando assim sua permanência no que está acontecendo e o seu necessário legado memorialista através de documentos visuais e da arte estabelecida.

É certo que os eventos que promovem a fotografia são os principais difusores de uma produção tanto já consagrada como aquela em crescimento. Daí seu papel essencial na apresentação de novos talentos e na preservação daqueles que construíram a história dessa  mídia. Neste aspecto o Paraty em Foco Festival Internacional de Fotografia (PEF) constitui-se há 15 anos como liderança na apresentação e difusão da cultura imagética vernacular e internacional.

Nomes como Thomas Hoepker, Ralph Gibson, Pep Bonet, Claudia Andujar, Maureen Bisilliat, Miguel Rio Branco, David Alan Harvey, Loretta Lux, Claudine Doury, Claudio Edinger, Luiz Braga,  Pieter Hugo, Olivia Arthur, Cristiano Mascaro, Bob Wolfenson, J.R.Duran, Thomaz Farkas, Claudia Jaguaribe, Walter Carvalho, Christopher Anderson, Bruce Gilden, Evandro Teixeira e Arthur Omar, entre outras dezenas de grandes profissionais, ilustraram a milhares de participantes as principais tendências da imagem fotográfica produzida em países como o Brasil, Alemanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Espanha, Holanda e África do Sul, entre outros.

Em uma década e meia de expressivas transições conceituais e técnicas, o Paraty em Foco Festival Internacional de Fotografia, cuja 16ª edição realiza-se em setembro deste ano, teve papel relevante na cultura nacional e na divulgação da produção internacional, abordando temas pertinentes às manifestações sociais, artísticas e políticas, como os movimentos migratórios no planeta, tema da última edição em 2019. Agora, traz para 2020 a discussão premente e necessária sobre o Meio Ambiente, aquele que abrange tanto a natureza quanto as relações humanas de sobrevivência.

FOTO DE CRISTHOPER ANDERSON, CONVIDADO DA TERCEIRA EDIÇÃO DO FESTIVAL.

O tema  debruça-se substancialmente em duas vertentes que se acomodam na dicotomia entre o espaço ameaçado e aquele preservado. Ou seja, a amplitude da fotografia permite que a questão ambiental seja abordada em diferentes e ecléticos caminhos. Os caminhos curatoriais com certeza somam em vez de serem excludentes. É uma visão ampla da fotografia – e seus heterogêneos traços – mais que desejada, não somente por nós mas por todos participantes.

Se por um lado a imagem engajada se revela em produções necessárias, fotógrafos documentaristas cujo ativismo é essencial na interrupção de práticas que sacrificam o meio ambiente, por outro é certo que aqueles que se movem levados pela estese e pela arte, de maneira mais conceitual, também são mais que necessários. O papel da arte é de levar a diferentes e ecléticos leitores questões de uma forma diferente, mas não menos eficiente.

A imagem socialmente engajada, conhecida como uma prática social ou arte socialmente comprometida, deve incluir qualquer forma de fotografia que envolva pessoas e comunidades em debate, colaboração ou interação social em diferentes frentes. A “fotografia pública”, como praticamos na maioria das exposições, associada às mostras nos centros de cultura, é uma forma de experiência socialmente engajada, e um festival de fotografia como o Paraty em Foco certamente é comprometido na difusão mais ampla e sem discriminação  das diferentes tendências.

A crescente alteração do clima do planeta produz efeitos negativos que vêm sendo registrados por inúmeros fotógrafos. Não precisamos ir ao Ártico para ver que o descongelamento está mais rápido do que os cientistas previam, nem sair de casa para ver os efeitos danosos que o aumento da temperatura está produzindo na Amazônia brasileira. Junte-se a estes e temos nosso próprio dia a dia em inúmeras e diferentes regiões do  Brasil e do mundo com crises emergentes e com lugares importantes sendo tratados artisticamente.

Os fotógrafos que estão sendo convidados a participar do festival, seja para os debates, masterclasses ou para as exposições , cujos nomes em breve iremos publicar, trabalham tanto neste documental quanto na arte. A eles se somarão os selecionados pela convocatória que, em equidade, poderão mostrar sua produção para um grande público. Em meio a estes acontecimentos, a fotografia se impõe em Paraty.

Uma revelação na Convocatória

Reiko Otake, primeira colocada na categoria Foto Única da Convocatória PEF 2019, fala sobre a foto vencedora, sua trajetória e outros projetos nesta entrevista

“SEM TÍTULO”, FOTO VENCEDORA DA CONVOCATÓRIA DO ANO PASSADO: PLASTICIDADE E SIMBOLISMO ENCANTARAM O JÚRI

Como foi sua trajetória na fotografia?

Sou fotógrafa amadora, me interesso por fotografia de rua, principalmente foto sobre
questões sociais e fotos de pessoas. Muitos fotógrafos me inspiram, como Bresson,
Sebastião Salgado, Claudia Andujar, Vivian Maier, gosto também do Tatsuo Suzuki,
Heloisa Lodder, Dorothea Lange…
Em 2018 participei de uma exposição coletiva no Armazém da Cidade, na Vila Madalena, em São Paulo, no mesmo ano tive um ensaio selecionado para a exposição “Imagens de uma Guerra Esquecida” onde as fotos foram transformadas em lambes e ocuparam a cidade de Natal, no Rio Grande do Norte. Participei também do Festival Internacional da Imagem, no Valongo, em Santos, através do VivaRua Fotografia.
Por que decidiu participar da Convocatória 2019? Já havia participado?
Faço curso de fotografia e na época da inscrição a professora falou sobre o festival e nos incentivou para que participássemos. A princípio não acreditei que o festival era para mim, pois ainda estava descobrindo esse mundo que já me cercava há tempos, porém tudo de forma muito intuitiva, mas resolvi aceitar o desafio e “expor” meu trabalho para uma avaliação e possível seleção. Fiquei super feliz!

O que representou a primeira colocação? Como foi a repercussão?
A repercussão que tive como selecionada e primeira colocada na categoria foto única foi
incrível, tive uma grande visibilidade, levando em consideração que o Paraty em Foco
atrai público de toda América Latina, sendo uma grande referência. Além disso, passei a
ter mais confiança no meu trabalho, sinto que foi um grande incentivo para continuar
estudando fotografia e seguir fotografando.
Fale sobre a foto vencedora.
A foto foi feita no rio Ganges, Índia. Já havia visitado o país em 2005 e
fiquei apaixonada pelo lugar, sabia que voltaria. Quando fui pela segunda vez, em 2018, a fotografia já fazia parte da minha vida e acreditava que esse retorno me renderia bons registros. Um deles foi a foto que apresentei no festival.
A imagem remete muito a migração, nela muitas pessoas estão confinadas num barco que as levaria para outra cidade, onde acreditam ter melhor oportunidade de vida e são “escoltadas” por aves que simbolizam a liberdade e esperança de dias melhores.

O que levou em conta na hora de escolher a foto que enviou?
O tema do festival foi relevante, pois acredito que a imagem nos faz pensar sobre migração, sobre o momento em que vivemos, com tantas pessoas abandonando seus lares em busca de uma vida mais digna, longe da miséria, da guerra…
Está desenvolvendo algum outro projeto atualmente? fale sobre ele.Sim, estou desenvolvendo um projeto sobre o bairro onde moro há mais de 40 anos,
especificamente sobre os moradores mais antigos. Vários casais estão juntos há
mais de cinco décadas, incluindo meus pais, e quero retratá-los.
Pretende participar novamente da Convocatória?
Sim, com certeza.
O que achou do festival em 2019?
Foi a primeira vez que participei do festival e adorei.. Infelizmente não consegui participar dos workshops, como fiquei poucos dias na cidade e num deles participei da mesa da Convocatória, não tive tempo para me organizar. Foi uma pena, principalmente porque tinha isenção no pagamento. Gostei muito da exposição, achei tudo bem organizado. Sou muito tímida e me senti bem acolhida e a vontade com todos os envolvidos. Uma sugestão é o valor dos workshops, sei que passamos por momentos difíceis na cultura, mas se os preços fossem mais populares o público seria maior.

Evandro Teixeira no IMS

Por André Teixeira

O Instituto Moreira Salles adquiriu, semana passada, parte do acervo do fotojornalista Evandro Teixeira, um dos mais consagrados do país. São cerca de 150 mil fotografias e negativos, além de documentos, publicações e equipamentos fotográficos, entre outros itens. O IMS já conta com acervos de outros grandes nomes da fotografia brasileira, como Thomas Farkas e Otto Stupakoff. Aproveitamos a oportunidade para republicar uma entrevista de Evandro a este blog, em 2018, intitulada “Um fotógrafo utópico”.

Muitos fotógrafos documentaram os movimentados anos da ditadura militar no Brasil‚ mas as primeiras imagens que vêm à memória quando se fala no assunto são obras de Evandro Teixeira. De certa forma, uma injustiça, tanto com os outros fotógrafos, que também eternizaram momentos importantes do período, quanto com o próprio Evandro, cuja carreira passa pelo esporte, moda, cultura, visitas de papas e rainhas, enfim, pelos fatos que marcaram nossa história nos últimos 50 anos. “Na verdade não sou um fotógrafo apenas de 68, mas fiquei marcado pela época. Produzi um material extenso e que hoje está sendo revisitado”, diz Evandro.
O interesse pelas suas fotos do período é justificável. Com uma incrível capacidade de estar no lugar e na hora certas, aliada ao domínio técnico e um olhar único, ele assina as imagens mais emblemáticas do período, num trabalho, segundo ele, sempre movido pela paixão e desejo de mudança. “Não ia para a rua só fotografar. Era minha maneira de participar de todos aqueles protestos, de mostrar a indignação contra o momento do país. Minha fotografia sempre foi um ato político”, afirma.


Essa postura diante da fotografia, que nunca se limitou ao temas do momento – seu livro Canudos – 100 anos é outro exemplo de trabalho com preocupação social e de denúncia – justifica o interesse que sua trajetória continua despertando, no Brasil e mundo afora. Longe das redações desde 2010, continua em atividade, numa rotina de palestras, workshops e exposições. “Procuro passar minha experiência para os mais jovens, mostrar a importância e as possibilidades do fotojornalismo”, comenta.
Bagagem não lhe falta para isso. Com o nome na Enciclopédia Internacional de Fotógrafos‚ que reúne os maiores nomes da fotografia desde 1839‚ Evandro tem trabalhos nos acervos do Museu de Arte Moderna do Rio‚ Masp e Museu de Arte Contemporânea de São Paulo‚ Museu de Belas Artes de Zurique‚ Suíça e Museu de Arte Moderna La Tertulia‚ em Cáli‚ na Colômbia. Já expôs em França, Alemanha‚ Suíça, Espanha‚ Itália, Estados Unidos, Cuba e México, entre outros países. A lista de prêmios é extensa‚ mas vale citar os dos concursos internacionais da Nikon‚ em 1975 e 1991‚ e da Unesco‚ em 1993. É com que esse currículo e uma inseparável câmera nas mãos que ele se apresentará no Paraty em Foco 2018, especialmente empolgado com o tema deste ano: Utopia / Distopia. “A utopia não morre. É a vida, se você tem coragem você não pode se entregar”, diz, num dos trechos da entrevista abaixo.


Depois de uma carreira de mais de 50 anos nas maiores redações do país, o que você tem feito atualmente?
Passo a maior parte do tempo em palestras, workshops e viagens. Em março estive no Ceará, nas cidades de Quixadá e Quixeramobim, participando do Festival de Fotografia do Sertão Central. Nos próximos meses tenho viagens marcadas para Minas, Uruguai e São Paulo, onde vou lançar uma exposição na Galeria Utópica. Não estou mais nas grandes redações, mas continuo fotografando e passando minha experiência para os mais jovens. E empolgado com o convite para o Paraty em Foco, um dos mais importantes do Brasil. Lembro de quando participei de uma mesa com a Nair Benedicto, uma conversa ótima, o público aplaudiu de pé.
Você encarava seu trabalho como um ato político? Era sua forma de se manifestar?
Claro. Sempre foi. Eu já tinha passado da época de estudante, então minha chance de protestar era com minha fotografia. Eu nunca fui para a rua pensando que aquilo era apenas meu trabalho. Sempre tive um compromisso, uma vontade de melhorar a situação.
Você sabia que suas fotos, mesmo que não fossem publicadas, valeriam como registros de um momento histórico?
Era um momento importante e eu participava com minha câmera, meu olhar. Era minha maneira de protestar. Era um momento, como hoje, em que tínhamos que estar na rua, cobrando, participando. A fotografia não morre, fica para a posteridade. Jornalismo é para isso. Eu trabalhava sabendo que aquilo era um documento histórico, que cedo ou tarde ia aparecer.


Naqueles tempos de censura rigorosa, a fotografia era uma válvula de escape para o jornalismo?
Sim, especialmente no Jornal do Brasil, que era censuradíssimo. Era um jornal muito irônico, e pagou um preço alto por isso. A gente tinha espaço para uma foto como a da libélula na ponta da baioneta, que foi publicada na capa do jornal e me rendeu um castigo.
O que aconteceu?
Fiz a foto quando estava saindo de uma exposição de armas. O presidente era o marechal Costa e Silva, e a foto dele saiu dentro, pequena. No dia seguinte fui para outro evento no Palácio Laranjeiras e ele mandou me chamar. Reclamou, disse que era um desrespeito ao presidente, me chamou de moleque. Argumentei que era uma decisão dos editores, mas ele mandou me deter por uma noite lá no Palácio.

Como se driblava a censura?
Era difícil. O Alberto Ferreira, um senhor editor, mandava fazer duas cópias de tudo. Uma ficava no esconderijo. Quando a gente conseguia publicar algo que desagradava, a barra pesava no dia seguinte. Tivemos vários companheiros agredidos, equipamento destruído…
Você tem uma foto que considera mais emblemática?
Isso que tem que dizer são vocês. Não posso ficar elogiando as minhas próprias fotos. Sei que tenho fotos históricas, Forte de Copacabana, passeata dos 100 mil, missa do Edson Luis. Algumas ficaram muito conhecidas..


A do soldado caído da moto é bem simbólica…
Essa tem uma história engraçada. A gente tinha ido cobrir a visita da rainha, e no final esse motoqueiro, que estava no final da fila, ficou se exibindo, fazendo manobras arriscadas. Senti que ele podia cair e fiquei acompanhando da janela do carro. A gente conhecia as pessoas, sabíamos o que eles eram capazes de fazer. Não deu outra. Caiu e fiz a foto, um clique só. No dia seguinte ele foi me procurar no jornal pedindo ajuda, estava com medo de ser preso. Prestei um depoimento e livrei a cara dele. Anos depois o reencontrei, estava na segurança do Sarney, acabou virando minha fonte, me dava umas dicas do que ia acontecer.
Você chegou a pensar em seguir uma carreira internacional?
Minha carreira internacional aconteceu com as minhas fotos. Foi até uma surpresa, não imaginava que fotos jornalística acabariam tendo essa dimensão internacional. Cheguei a ser convidado para trabalhar na itália, mas não aceitei. Sou enraizado, sertanejo.
Ainda é possível ser utópico com a fotografia?
Claro. Isso não acaba nunca. Como diz o Silvio Tendler, a utopia é a vida, se você tem coragem não pode se entregar. Eu não parei de sonhar, não estou mais em jornal mas continuo fotografando e passando minha vivência, minha história, para os jovens. Essa é minha utopia hoje.

Um novo Paraty em Foco

Por André Teixeira

Exposições “Guimarães Rosa: Grande Sertão Veredas”, de Maureen Bisiliat, homenageada do Paraty
em Foco 2018, e finalistas da Convocatória, na Praça da Matriz. Foto de Tiago Ferraz/No olhar TV.

O lançamento das novas versões do nosso site e deste blog dão a largada oficial na 16a. edição do Paraty em Foco, realizado desde 2005 na charmosa cidade histórica do litoral sul fluminense, mas o trabalho de produção do evento começou ainda em setembro do ano passado, assim que a última palestra do PEF 2019 foi encerrada. Assuntos como definição do tema, convidados, equipe, parcerias, estrutura, enfim, tudo que envolve um evento desse porte, vêm sendo discutidos em reuniões de trabalho e conversas entre os organizadores. O objetivo, como sempre, é avaliar edições anteriores e trazer novas ideias, reforçando o conceito de fazer “um festival para todos os olhares” e a proposta de integrá-lo ainda mais à comunidade paratiense.

Mais do que um meio de expressão artística — o que não é pouco — , vemos a fotografia como uma ferramenta de inclusão social, de preservação da memória e, especialmente, um instrumento de alerta para as questões que nos cercam. Esta consciência vem ficando mais clara a cada ano, a começar pela escolha dos temas que norteiam cada edição, como em 2019, “Migrações”. O de 2020, “Emergência/Permanência”, que tratará da questão ambiental, corre nessa linha.

“Yanomami: Marcados para morrer?”, de Claudia Andujar, homenageada em 2019: questões sociais em debate. Foto de Nereu Jr.

O Paraty em Foco sempre foi marcado pela presença de nomes de peso da fotografia brasileira e internacional, em exposições, palestras, leituras de portfólios e workshops, em eventos que promovem a integração entre público e convidados. Esta participação só é possível pelas parcerias com empresas, Prefeitura, órgãos governamentais e consulados estrangeiros, que, apoiando a vinda de profissionais de seus respectivos países, estimulam a troca de informações e o intercâmbio de cultura, fundamentais num mundo ada vez mais interconectado.

As presenças ilustres atraem público e dão prestígio ao festival, mas temos outro eixo fundamental em nossa proposta: abrir espaços para novos olhares, criar oportunidades para a divulgação de trabalhos inéditos. A Convocatória é nosso canal para isso, e vem sendo um sucesso crescente: em 2019, foram mais de mil inscrições, entre fotos únicas e ensaios, avaliadas por nomes de diversas áreas da fotografia. As vencedoras são expostas na quadra da Praça da Matriz, um dos espaços nobres da festa, numa oportunidade às vezes única para jovens talentos mostrarem a cara. As inscrições já estão abertas, em https://www.pefparatyemfoco.com.br/convocatoria-2020.

Este blog será um dos canais de informação e divulgação do festival, trazendo entrevistas com convidados, participantes da Convocatória e do júri. Nossas redes sociais no Instagram e no Facebook também cumprirão esse papel. Siga-nos e compartilhe nossas publicações para ajudar na viabilização do mais charmoso festival de fotografia do país.

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