Um retrato da migração

Virginia Yunes, segunda colocada na categoria Foto Única da Convocatória PEF 2019, fala sobre a foto escolhida, sua trajetória e outros projetos nesta entrevista

Fale sobre sua trajetória na fotografia.

Nasci na Argentina, e com 10 anos de idade mudei-me para Florianópolis, no Brasil. Creio que esta minha condição de imigrante despertou em mim o interesse pela diversidade étnica e cultural. Posteriormente, a interação com missionários católicos levou-me a fazer voluntariado em vários lugares do Brasil e países, tendo morado um ano na Amazônia, um mês no México e quase dois anos na Guiné Bissau (África). Foi precisamente o conflito armado de 1998, na Guiné-Bissau, o precursor da minha carreira fotográfica, embora eu já tivesse alguma familiaridade com as artes visuais, e, de maneira especial, com a fotografia. Ao retornar ao Brasil, eu percebi que deste lado do Atlântico a maioria das pessoas não sabia o que estava acontecendo na África, era uma guerra não noticiada pela mídia brasileira. Com objetivo de tornar conhecido o conflito armado e de angariar fundos para enviá-los ao povo guineense, organizei uma exposição itinerante, “SOS Guiné Bissau”, com as fotografias que realizei durante a minha estadia no país. Percebi nela o instrumento de comunicação, de reflexão, e denúncia também. Me apaixonei pela fotografia!

Minha formação académica começa na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde graduei-me em Farmácia e fiz o mestrado em Ciência dos Alimentos. Pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) licenciei-me em Educação Artística e fiz doutorado em Artes Visuais. Nesta última universidade atuo como professora colaboradora de fotografia no curso de Artes Visuais.

Tenho experiência vasta como fotógrafa documentarista, tendo colaborado com diversas instituições, revistas e ONGs: Unicef, Caritas e Mundo & Missão, entre outras, em diferentes países, num total de 46. Organizei várias exposições nacionais e internacionais. Premiada no Brasil, na Argentina, na Colômbia e em Cuba, no âmbito da fotografia e de projetos culturais.

Entre as tantas referências no Campo Fotográfico destaco os fotógrafos Sebastião Salgado, Pierre Verger, Henri Cartier Bresson, Steve McCurry, entre tantos outros. Vale lembrar que nossa bagagem é constituída de referências que transportamos de outras áreas, como da literatura, música, cinema, etc.

A busca incessante por experiências diversas, aliada à presença constante da minha câmara fotográfica, de fato, foi o que me impulsionou e levou para tantos lugares, aproximando-me de pessoas distantes de mim. Descobri a fotografia e me descobri ao ir ao encontro dos outros. Compreende a fotografia como agente de aproximação entre pessoas, concepções do mundo, culturas e detector de fronteiras. Acredito na arte comprometida e humanista, cujo poder se torna fundamental para sensibilizar, levar à reflexão crítica, educar, aprimorar, engajar os indivíduos nas lutas sociais, transformando vidas, olhares e, também, corações.

Por que decidiu participar da Convocatória 2019? Já havia participado?

Uma amiga me enviou a convocatória, me motivando a participar. Assim que ela tomou conhecimento da temática, lembrou das minhas fotografias. Eu já havia participado como ouvinte do Festival há alguns anos.

O que representou ser selecionada entre as três vencedoras? Como foi a repercussão?

Ser premiada no Festival Paraty em Foco, um dos mais importante do Brasil e talvez da América do Sul, foi uma grande alegria, sobretudo, por ser escolhida uma fotografia documental, legitimando, de certo modo, o meu ato fotográfico.

Fale sobre a foto selecionada. Faz parte de algum projeto maior?

Há muitos anos eu viajo trabalhando para algumas instituições e ONGs, na maioria das vezes, eles me pagam a passagem e hospedagem, em troca eu ofereço as minhas fotografias usadas para angariar fundos e/ou escrever os relatórios àqueles que financiaram/patrocinaram seus projetos.

A fotografia premiada foi feita em Uganda, na África no ano de 2010. Viajei ao país para documentar, em foto e vídeo, crianças órfãs vítimas de Aids. As fotos foram utilizadas para angariar fundos e apadrinhamento à distância. Na ocasião estava acontecendo um grande encontro religioso, participando dele mais de 20 mil pessoas vindas de cidades e países vizinhos. Muitos chegavam e partiam a pé ou em boleia de camião, carregavam em algumas trouxas de tecidos suas roupas e alimentos, também transportavam colchões ou panos para dormir ao ar livre num imenso campo organizado para esse encontro. Foi uma experiência incrível e nesses dias de retiro eu tive a oportunidade de interagir com muitas das pessoas, o que de certa forma facilitou a produção das imagens, essa familiaridade minha com eles e vice-versa.

O que levou em conta na hora de escolher as fotos e ensaios para enviar?

Como o tema era Migrações, lembrei de tantas pessoas que diariamente se deslocam de suas terras a procura de uma vida melhor, um futuro seguro, uma esperança. Pré-selecionei também algumas imagens que eu tinha de africanos em diáspora e outras imagens que faziam alusão ao tema. Como tinha que enviar apenas três, pedi ajuda aos amigos e colegas, é muito importante contar com o olhar do outro pois a nossa relação afetiva nos impede muitas vezes de fazer a seleção final.

Está desenvolvendo algum outro projeto atualmente?

Atualmente dou aula de fotografia na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), continuo fotografando como free-lancer – em 2019, por exemplo, fui contratada pela Caritas para fotografar diversos projetos de Economia Popular Solidária em diversas regiões do Brasil. Também estou desenvolvendo dois projetos premiados por um edital da Fundação Cultural do Estado de Santa Catarina para editar livros de fotografias. Um deles é sobre a dança do Catumbi, que acontece numa comunidade quilombola do Itapocu, no interior do Estado, uma manifestação religiosa afro-brasileira. O outro, chamado “Cabelos Afros: símbolo de resistência e luta”, irá valorizar e unir a essa luta.

Pretende participar novamente da Convocatória?

Sim, ainda mais se eu tiver no meu arquivo fotos que remetam ao tema.

O que achou do festival em 2019?

Gostei muito de participar do Festival, palestras e debates riquíssimos, exposições incríveis, todo o ambiente criado na cidade ajudou na troca de experiência com outros fotógrafos e cidadãos. Como eu tinha passe livre para todas as palestras, aproveitei e não perdi nenhuma, entretanto, fiquei com o desejo de ter feito alguma oficina, mas elas aconteciam no mesmo horário das palestras. Talvez esta seja uma das minhas observações, se é possível pensar em como programar as oficinas em dias ou horários diferentes.

Publicado por paratyemfoco2021

Blog do Paraty em Foco, festival de fotografia realizado em Paraty, cidade histórica do sul fluminense.

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