Homenagem a Thomaz Farkas

Por André Teixeira

A fotografia foi apresentada ao mundo como uma reprodução objetiva,
“pura”, do real. Seu caráter técnico lhe conferia um valor de documento
que pinturas, esculturas e outras obras que dependiam da mão humana, por
mais realistas que fossem, não tinham. Em pouco tempo, no entanto, a
inquietação dos primeiros fotógrafos mudou esse panorama: mais do que
reproduzir, ela podia e queria interpretar, influenciar, até mesmo subverter
a realidade. A imagem no espelho, mais do que um reflexo, produzia
reflexões.

Fotos de Thomaz Farkas – Acervo IMS

Tínhamos, literalmente impressa numa folha de papel, uma contradição em
termos: um documento que permitia interpretações subjetivas. O mundo
não era apenas visto; era, também, sentido, reinterpretado. O instantâneo se
tornava duradouro, e a fotografia, arte.
A disseminação da fotografia digital modificou esse cenário. Passamos a
produzir imagens compulsivamente: só em 2017, segundo o fotógrafo e
professor Millard Schisler, a humanidade fez um trilhão de cliques – 85%
com celulares. Tudo é registrado, a vida só acontece se transformada em
pixels publicados nas redes sociais.

Nossa capacidade de absorver e interpretar imagens é limitada. Soterrados
por essa avalanche de registros banais do cotidiano, trabalhos consistentes,
analíticos, até mesmo provocativos, perdem visibilidade. A fotografia é,
assim, novamente relegada ao papel de mero documento, de comprovação
do real.
Nada contra, evidentemente, a imagem digital, muito menos sua
democratização. Acreditamos, porém, que é hora de revalorizar a fotografia
que, além de despertar sentimentos, questões e subjetividades, tenha a
qualidade como pilar. Viveremos um ano em que o mundo, após a
pandemia, encontrará novos caminhos, que em muitos casos exigirão a
redescoberta de bases sólidas, tradicionais. A fotografia, espelho deste
mundo, deve seguir a mesma trajetória.

A escolha de Thomaz Farkas como homenageado do PEF PARATY EM
FOCO 2021 se enquadra nesse conceito. Pioneiro da moderna fotografia
brasileira, professor, produtor e diretor de cinema, Farkas foi ao mesmo
tempo revolucionário e conservador: a inovação apresentada em sua obra sempre se apoiou numa consistente formação técnica e cultural. Simboliza,
assim, essa busca por novos rumos, apoiada na qualidade e reflexão. É o
que propomos para a 17ª. edição do nosso festival, nos 10 anos da morte deste ícone da fotografia brasileira.

Publicado por paratyemfoco2021

Blog do Paraty em Foco, festival de fotografia realizado em Paraty, cidade histórica do sul fluminense.

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