Por André Teixeira
A fotografia foi apresentada ao mundo como uma reprodução objetiva,
“pura”, do real. Seu caráter técnico lhe conferia um valor de documento
que pinturas, esculturas e outras obras que dependiam da mão humana, por
mais realistas que fossem, não tinham. Em pouco tempo, no entanto, a
inquietação dos primeiros fotógrafos mudou esse panorama: mais do que
reproduzir, ela podia e queria interpretar, influenciar, até mesmo subverter
a realidade. A imagem no espelho, mais do que um reflexo, produzia
reflexões.

Tínhamos, literalmente impressa numa folha de papel, uma contradição em
termos: um documento que permitia interpretações subjetivas. O mundo
não era apenas visto; era, também, sentido, reinterpretado. O instantâneo se
tornava duradouro, e a fotografia, arte.
A disseminação da fotografia digital modificou esse cenário. Passamos a
produzir imagens compulsivamente: só em 2017, segundo o fotógrafo e
professor Millard Schisler, a humanidade fez um trilhão de cliques – 85%
com celulares. Tudo é registrado, a vida só acontece se transformada em
pixels publicados nas redes sociais.
Nossa capacidade de absorver e interpretar imagens é limitada. Soterrados
por essa avalanche de registros banais do cotidiano, trabalhos consistentes,
analíticos, até mesmo provocativos, perdem visibilidade. A fotografia é,
assim, novamente relegada ao papel de mero documento, de comprovação
do real.
Nada contra, evidentemente, a imagem digital, muito menos sua
democratização. Acreditamos, porém, que é hora de revalorizar a fotografia
que, além de despertar sentimentos, questões e subjetividades, tenha a
qualidade como pilar. Viveremos um ano em que o mundo, após a
pandemia, encontrará novos caminhos, que em muitos casos exigirão a
redescoberta de bases sólidas, tradicionais. A fotografia, espelho deste
mundo, deve seguir a mesma trajetória.

A escolha de Thomaz Farkas como homenageado do PEF PARATY EM
FOCO 2021 se enquadra nesse conceito. Pioneiro da moderna fotografia
brasileira, professor, produtor e diretor de cinema, Farkas foi ao mesmo
tempo revolucionário e conservador: a inovação apresentada em sua obra sempre se apoiou numa consistente formação técnica e cultural. Simboliza,
assim, essa busca por novos rumos, apoiada na qualidade e reflexão. É o
que propomos para a 17ª. edição do nosso festival, nos 10 anos da morte deste ícone da fotografia brasileira.




