Por André Teixeira

O Instituto Moreira Salles adquiriu, semana passada, parte do acervo do fotojornalista Evandro Teixeira, um dos mais consagrados do país. São cerca de 150 mil fotografias e negativos, além de documentos, publicações e equipamentos fotográficos, entre outros itens. O IMS já conta com acervos de outros grandes nomes da fotografia brasileira, como Thomas Farkas e Otto Stupakoff. Aproveitamos a oportunidade para republicar uma entrevista de Evandro a este blog, em 2018, intitulada “Um fotógrafo utópico”.
Muitos fotógrafos documentaram os movimentados anos da ditadura militar no Brasil‚ mas as primeiras imagens que vêm à memória quando se fala no assunto são obras de Evandro Teixeira. De certa forma, uma injustiça, tanto com os outros fotógrafos, que também eternizaram momentos importantes do período, quanto com o próprio Evandro, cuja carreira passa pelo esporte, moda, cultura, visitas de papas e rainhas, enfim, pelos fatos que marcaram nossa história nos últimos 50 anos. “Na verdade não sou um fotógrafo apenas de 68, mas fiquei marcado pela época. Produzi um material extenso e que hoje está sendo revisitado”, diz Evandro.
O interesse pelas suas fotos do período é justificável. Com uma incrível capacidade de estar no lugar e na hora certas, aliada ao domínio técnico e um olhar único, ele assina as imagens mais emblemáticas do período, num trabalho, segundo ele, sempre movido pela paixão e desejo de mudança. “Não ia para a rua só fotografar. Era minha maneira de participar de todos aqueles protestos, de mostrar a indignação contra o momento do país. Minha fotografia sempre foi um ato político”, afirma.

Essa postura diante da fotografia, que nunca se limitou ao temas do momento – seu livro Canudos – 100 anos é outro exemplo de trabalho com preocupação social e de denúncia – justifica o interesse que sua trajetória continua despertando, no Brasil e mundo afora. Longe das redações desde 2010, continua em atividade, numa rotina de palestras, workshops e exposições. “Procuro passar minha experiência para os mais jovens, mostrar a importância e as possibilidades do fotojornalismo”, comenta.
Bagagem não lhe falta para isso. Com o nome na Enciclopédia Internacional de Fotógrafos‚ que reúne os maiores nomes da fotografia desde 1839‚ Evandro tem trabalhos nos acervos do Museu de Arte Moderna do Rio‚ Masp e Museu de Arte Contemporânea de São Paulo‚ Museu de Belas Artes de Zurique‚ Suíça e Museu de Arte Moderna La Tertulia‚ em Cáli‚ na Colômbia. Já expôs em França, Alemanha‚ Suíça, Espanha‚ Itália, Estados Unidos, Cuba e México, entre outros países. A lista de prêmios é extensa‚ mas vale citar os dos concursos internacionais da Nikon‚ em 1975 e 1991‚ e da Unesco‚ em 1993. É com que esse currículo e uma inseparável câmera nas mãos que ele se apresentará no Paraty em Foco 2018, especialmente empolgado com o tema deste ano: Utopia / Distopia. “A utopia não morre. É a vida, se você tem coragem você não pode se entregar”, diz, num dos trechos da entrevista abaixo.

Depois de uma carreira de mais de 50 anos nas maiores redações do país, o que você tem feito atualmente?
Passo a maior parte do tempo em palestras, workshops e viagens. Em março estive no Ceará, nas cidades de Quixadá e Quixeramobim, participando do Festival de Fotografia do Sertão Central. Nos próximos meses tenho viagens marcadas para Minas, Uruguai e São Paulo, onde vou lançar uma exposição na Galeria Utópica. Não estou mais nas grandes redações, mas continuo fotografando e passando minha experiência para os mais jovens. E empolgado com o convite para o Paraty em Foco, um dos mais importantes do Brasil. Lembro de quando participei de uma mesa com a Nair Benedicto, uma conversa ótima, o público aplaudiu de pé.
Você encarava seu trabalho como um ato político? Era sua forma de se manifestar?
Claro. Sempre foi. Eu já tinha passado da época de estudante, então minha chance de protestar era com minha fotografia. Eu nunca fui para a rua pensando que aquilo era apenas meu trabalho. Sempre tive um compromisso, uma vontade de melhorar a situação.
Você sabia que suas fotos, mesmo que não fossem publicadas, valeriam como registros de um momento histórico?
Era um momento importante e eu participava com minha câmera, meu olhar. Era minha maneira de protestar. Era um momento, como hoje, em que tínhamos que estar na rua, cobrando, participando. A fotografia não morre, fica para a posteridade. Jornalismo é para isso. Eu trabalhava sabendo que aquilo era um documento histórico, que cedo ou tarde ia aparecer.

Naqueles tempos de censura rigorosa, a fotografia era uma válvula de escape para o jornalismo?
Sim, especialmente no Jornal do Brasil, que era censuradíssimo. Era um jornal muito irônico, e pagou um preço alto por isso. A gente tinha espaço para uma foto como a da libélula na ponta da baioneta, que foi publicada na capa do jornal e me rendeu um castigo.
O que aconteceu?
Fiz a foto quando estava saindo de uma exposição de armas. O presidente era o marechal Costa e Silva, e a foto dele saiu dentro, pequena. No dia seguinte fui para outro evento no Palácio Laranjeiras e ele mandou me chamar. Reclamou, disse que era um desrespeito ao presidente, me chamou de moleque. Argumentei que era uma decisão dos editores, mas ele mandou me deter por uma noite lá no Palácio.

Como se driblava a censura?
Era difícil. O Alberto Ferreira, um senhor editor, mandava fazer duas cópias de tudo. Uma ficava no esconderijo. Quando a gente conseguia publicar algo que desagradava, a barra pesava no dia seguinte. Tivemos vários companheiros agredidos, equipamento destruído…
Você tem uma foto que considera mais emblemática?
Isso que tem que dizer são vocês. Não posso ficar elogiando as minhas próprias fotos. Sei que tenho fotos históricas, Forte de Copacabana, passeata dos 100 mil, missa do Edson Luis. Algumas ficaram muito conhecidas..

A do soldado caído da moto é bem simbólica…
Essa tem uma história engraçada. A gente tinha ido cobrir a visita da rainha, e no final esse motoqueiro, que estava no final da fila, ficou se exibindo, fazendo manobras arriscadas. Senti que ele podia cair e fiquei acompanhando da janela do carro. A gente conhecia as pessoas, sabíamos o que eles eram capazes de fazer. Não deu outra. Caiu e fiz a foto, um clique só. No dia seguinte ele foi me procurar no jornal pedindo ajuda, estava com medo de ser preso. Prestei um depoimento e livrei a cara dele. Anos depois o reencontrei, estava na segurança do Sarney, acabou virando minha fonte, me dava umas dicas do que ia acontecer.
Você chegou a pensar em seguir uma carreira internacional?
Minha carreira internacional aconteceu com as minhas fotos. Foi até uma surpresa, não imaginava que fotos jornalística acabariam tendo essa dimensão internacional. Cheguei a ser convidado para trabalhar na itália, mas não aceitei. Sou enraizado, sertanejo.
Ainda é possível ser utópico com a fotografia?
Claro. Isso não acaba nunca. Como diz o Silvio Tendler, a utopia é a vida, se você tem coragem não pode se entregar. Eu não parei de sonhar, não estou mais em jornal mas continuo fotografando e passando minha vivência, minha história, para os jovens. Essa é minha utopia hoje.

